Declarem-se.

O pavão
 
Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Rubem Braga. Rio, novembro, 1958

Roupinha amassada.

Amor, nasci assim mesmo, fraquinha. Vai ver tamanho é documento. Vai ver pouco peso interfere. Fui a primeira na vida daquela família, uma surpresa bem vinda, um primor de menina. Neném pequena, bonita e boazinha, todo mundo dizia. Companhia disputada, porque sorria, sorria. Era só fazer isso e eu nunca ficava sozinha. Em qualquer momento, uma tia, uma avó, uma cozinheira aparecia. Todo mundo me queria. De tanto colo, demorei para andar sozinha. Depois, vieram as meninas, coadjuvantes estrelinhas. E os mimos das professoras de ginásio, das amigas, da madrinha. Quando já podia sair à noitinha, eram os meninos que viam em mim uma boa companhia. A vida ia, vinha, e eu fui crescendo assim, à medida que recebia e retribuía o amor que conseguia. Às vezes era tanto que não cabia, então eu chorava, gritava, bebia. Até que um dia, perdi a mão enquanto me distraía. Queria costurar a boneca, alguém vinha e fazia. Queria servir o leite, alguém vinha e servia. Queria guardar a roupinha amassada, alguém vinha e dobrava. Eu tapava os olhos e sorria. Passei assim a vida todinha. O que eu tento dizer, meu bem, é que sei que com você foi diferente. Com amor, porém sem goma ou poesia. Mas não se atreva a pensar que fui ingênua menina. Pois eu arregalava bem o olho e via e via. Por isso, se só sabe brincar desse jeito, procure alguém da sua grandeza física.

Nua, diante do espelho…

viu uma menina, apesar da gordura acumulada no culote. Brincava de se hipnotizar com a própria imagem até ficar vesga e não ver mais nada. Distraiu-se por um instante com o reflexo do resto de conhaque colado no fundo da taça.

Associou o detalhe à subreptícia tentativa de reconciliação do ex. Em sua indiscrição crônica ele perguntou anteontem: quanto você está pesando? 45. Quanto pesava quando a gente namorava? 47, mas depois engordei até os 50. Não dá para voltar aos 47? Ela desviou a atenção para a janela aberta. Era uma marca familiar. Ficar olhando para fora quando havia um espelho em frente. Aos 9, aos 29, aos 79. Todas neurastênicas, dizia vovó.

Achou bonito que nem quadro um pedaço do criado-mudo duro, de mármore e jacarandá, apoiando os livros meio abertos, acompanhando o caimento da colcha feita no tear, estendida sob a cama antiga, estreita que só vendo, dos tempos em que moça deita sozinha, até casar. É sua, meu bem. Estristeceu-se com os reflexos da herança.

Havia pontas soltas no cabelo. Planejou fazer o corte perfeito. Vestiu-se em frente ao espelho com a impressão de que aquela sainha mudaria sua vida.

A melhor porta pela manhã

france 125“Bread, milk and butter are of venerable antiquity. They taste of the morning of the world” (Leigh Hunt).

Aos 25, uma pequena revisão.

Não sei o que fiz até hoje a ponto de não me dar conta. Aos 25 anos, a vida é diferente. Falo por mim, quem sabe do outro. Aliás, o outro é tudo quanto vem me distraindo esses últimos anos. Quando as amigas diziam que a minha vida era perfeita, eu me despreocupava, menosprezando querelas essenciais. Como se perfeição durasse mais que um instante. Quando os amigos diziam que eu era responsável, eu acreditava. Como se o que vissem fosse o conjunto completo, que, podem apostar, de contradições está farto. Quando a família dizia que eu era inteligente, eu me esforçava menos, porque supostamente não precisava. Quando os meninos me elogiavam, eu abria mão da maquiagem. Como se para ser original eu precisasse ser natural – e pálida. Assumo a responsabilidade pelos enganos cometidos, mas a questão a esclarecer agora é: quem me tornei de verdade?

Caixinhas são, para mim, o único objeto passível de valer uma coleção. Quero delas um milhar, para preservar minhas descobertas e lembranças de viagens e de amores finitos. Na velhice, também para guardar remédios com dignidade. Concentrar pílulas de memórias em um recipiente. Só abrir e suspirar. Certa vez, disse para um rapaz que gostaria de guardá-lo numa dessas. Eu podia resgatá-lo para saciar a saudade e ainda sempre que precisasse respirar. Ele não quis. Acho que me deu isso de adorar caixinhas quando minha avó contou a história da Dona Baratinha. Enquanto arrumava a casa, ela achou uma moedinha. Se pôs bonita e passou a ficar em sua janela, cantando “quem quer casar com a Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?”. Arranjou vários pretendentes, mas cada um fazia um barulho mais assustador à noite. O único quietinho era o Dom Ratão, que ela escolheu como parceiro. No dia do casamento, porém, ele foi xeretar a comida na cozinha e se afogou na panela de feijão. Reforço o desfecho, desapontando quem esperava outro: o noivo morreu, ponto. Desconsolo infantil.

Levantei os braços para o alto e cantei. Passei bem os últimos anos; aventureira curiosa, entusiasmada. E, logo agora, em plena passagem para o próximo quarto de vida, fui pega em cima do muro. Igual ao Obama, que de tanto se equilibrar só se dá mal. De que vale ganhar o prêmio da Paz, se é para perder mais que todos os lados? O defendo com dentes, mas percebo a lição. E sinto que estou atrasada, feito o coelho da Alice, de colete e cartola, segurando um antiquado relógio de bolso. É tarde, é tarde, é tarde! Aos 25, é tarde para não decidir, apesar de ser cedo para ter certeza. Brincar de casinha, uma mochila nas costas, abrir um negócio, viver de salário, salvar o mundo, cuidar da família. Ter 5 filhos, e nos levarmos à loucura. É tarde para ser amadora. Nada de ficar tateando. É hora de ir fundo, definir itens para cumprir todos os dias. Como em um casamento, suponho, escolher a mesma pessoa a cada manhã. Quais as manias inaceitáveis, quais são toleráveis, desejáveis, charmosas até. Dei-me conta que o que eu quero é ainda coisa demais e não vai caber. É hora de assumir um partido, a playlist, o jornal predileto, vestido curto, a turma preferida, o destino – praia, campo, Londres ou Havaí – o que combina, o que não dá.

Isso porque ainda é cedo para pensar na morte. Curvar as costas e mirar o chão em vez do horizonte. Sou nova para ser amarga e velha para ser revoltada. É tarde para ficar alheia às responsabilidades, usar um fone de ouvido o tempo todo pendurado na orelha. É tempo bom para fazer o que quero e acreditar em tudo o que faço. Hora de ser original, pois também ficou tarde para copiar. Hora propícia para me tornar. Rockeira, amélia, astronauta, comediante, camareira. Preciso de um projeto a longo prazo, caso eu ganhe a loteria. Desejava estar em plena prática. Mas agora estou ocupada construindo uma ponte estaiada para unir as linhas da vida e do amor, que descobri não se cruzam na minha mão. (Ai, se dos últimos natais Papai Noel não existir fosse a pior notícia…) Aos 25 anos, é tarde e cedo para aceitar.

Isso resume tudo.

Em defesa do romance

Texto indispensável de Mario Vargas Llosa, publicado na revista Piauí n.37, repleto de verdades simples, porém óbvias para poucos. Segue um trecho abaixo e o link para quem quiser se aventurar.

Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo – um mundo sem literatura teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal

“Muitas vezes me ocorre, nas feiras de livros ou nas livrarias, que um senhor se aproxime de mim com um livro meu nas mãos e me peça para autografá-lo, es-pecificando: é para a minha mulher, ou minha filha, ou minha irmã, ou minha mãe; ela, ou elas, são grandes leitoras e são apaixonadas por literatura. E eu lhe pergunto, de imediato: “E o senhor? Não gosta de ler?”

A resposta chega pontual, quase sempre: “Bem, sim, é claro que gosto, mas sou uma pessoa muito ocupada, sabe como é.” Sim, sei muito bem, porque ouvi essa explicação dezenas de vezes: esse senhor, esses milhares de senhores iguais a ele têm tantas coisas importantes, tantas obrigações e responsabilidades na vida, que não podem desperdiçar seu tempo precioso passando horas e horas imersos num romance, num livro de poemas ou num ensaio literário. Segundo essa concepção, a literatura é uma atividade da qual se pode prescindir, um entretenimento elevado e útil para cultivar a sensibilidade e as boas maneiras, um ornamento que se podem permitir os que dispõem de tempo livre para a recreação, e que seria necessário computar na categoria dos esportes, do cinema, do bridge ou do xadrez, mas que pode ser sacrificado sem escrúpulos no momento de estabelecer uma escala de prioridades nos afazeres e compromissos indispensáveis da luta pela vida.

É verdade que a literatura acabou por se tornar, cada vez mais, uma atividade feminina: nas livrarias, nas conferências ou nas readings dos escritores e, natural-mente, nos departamentos e nas faculdades em que se estuda literatura, as saias ganham de goleada das calças. A explicação é que, na classe mé-dia, as mulheres leem mais porque trabalham menos horas que os homens, e que muitas delas tendem a se considerar mais justificadas do que os homens no tempo que dedicam à fantasia e à ilusão. Como sou um tanto alérgico a essas explicações, que dividem homens e mulheres em categorias estanques com virtudes e fraquezas coletivas, não partilho dessas interpretações; mas num aspecto não resta dúvida: há cada vez menos leitores de literatura – há muitos leitores, mas de lixo impresso – e, entre eles, as mulheres prevalecem.”